Pode ser o km zero do TRC no país. Há 86 anos um pioneiro
International 1928 percorreu o trajeto em 56 horas. Sem estradas,
combustível nem socorro mecânico. Só a coragem do motorista Manoel
Matos. Viajar era preciso
Luciano Alves Pereira
De
decisiva importância sócio-econômica no mundo, a atividade caminhoneira
mudou a cara do planeta e continua no processo. Uma péssima lembrança
alusiva aponta para o austríaco Adolf Hitler, ardoroso fã do caminhão,
como ágil suporte à logística da guerra. Já em horizonte diverso, coube à
nossa imortal cearense, Raquel de Queiroz – da Academia Brasileira de
Letras – não economizar louvores ao caminhão em seus primórdios. Era o
cortador de chão da caatinga e exímio provedor de tudo que a vida
requer, seja para o corpo, a alma e necessidades intermediárias.
Quando
começaram a se mexer, esses mostrengos auto-propelidos assustavam os
cavalos e derrubavam os cavaleiros. Para os americanos, zelosos com a
história dos seus pioneiros, o início oficial da trucking
(caminhonice) foi em 1934. A data é da ATA, a entidade nacional das
empresas de carga locais. Desconhecemos os critérios para definição do
referido ponto zero.
International
1928, restaurado pela Jeff Lilly Restorations, do Texas, EUA. Já
possuía cabine com portas e vidros móveis. Seu porte era de uma picape
de hoje
Como
curiosidade adicional, cabe lembrar que o governo americano já havia
baixado normas para o descanso dos condutores. Isto em 1933. As
cabines-leito surgiram depois. A Kenworth, por exemplo, vendeu sua
primeira boleia com cama em 1936.
No
Brasil, como até hoje, faltavam estradas. Mas por onde passasse uma
tropa de burros, os pioneiros dos caminhos metiam a cara. Tal foi
noticiado pelo Jornal de Lavras (MG), há 86 nos, resguardado em seu
arquivo especial Efemérides de Lavras. Dali foi pinçado o precioso
registro da primeira viagem interestadual de caminhão, realizada do Rio
de Janeiro para a cidade do Sul de Minas. E com detalhes. Ocorreu entre
os dias 28 e 30 de setembro, no longínquo ano de 1928. Uma aventura por
cerca de 400 quilômetros. Manoel Matos (falecido em 1957) foi o heróico
desbravador desses sete mares.
Ele
saiu do Rio pela já existente estrada de rodagem Rio – Petrópolis (hoje
parte da BR-040). Ela estava recém-pavimentada em concreto, serviço
tocado pelo então presidente Washington Luiz (1926-1930). Seguiu pela
União e Indústria, ainda dos tempos do império. Esta foi feita pelo
empreendedor mineiro Mariano Procópio. Tinha leito carroçável, além de
imprescindíveis pontes sobre os rios Paraíba do Sul e Paraibuna. Chegou a
Juiz de Fora, após percorrer cerca de 200 quilômetros.
Dali
pra frente é que vinha o desafio. Existia o histórico Caminho Novo das
Minas Gerais, dos tempos do Brasil colônia. Era a ligação com o
Rio-capital, contratada e feita por Garcia Rodrigues Paes. Um beco para
tropas de burros, que o mesmo Mariano Procópio pensava em dar-lhe
passagem para carruagens. Também havia estrada de rodagem (melhor
chamá-la de animais) entre Barbacena e Lavras. Fazia parte do anterior
Caminho Velho, que a coroa portuguesa usava para levar o ouro de Vila
Rica ao mar, via Parati (RJ)
Por
aqui passou Manoel Matos: trecho da serra da Mantiqueira, com “piso de
pedra” e poste com fios telefônicos da década de 1940. Ao fundo a “ bica
d’água” do Henrique Leça. Detalhe do bueiro de 1928 (foto de 1994)
A VIAGEM
– Agora vem o caminhão. Manoel Matos tocava um International novo, ano
1928, importado dos EUA, semelhante ao da foto. Talvez preto. Tinha
motor de quatro cilindros em linha, movido a gasolina, rodas de madeira,
mas não de pneus maciços. Dito modelo já incorporava a melhoria da
boleia com portas, além de janelas com vidros de erguer e baixar.
Possivelmente o freio de serviço fosse a óleo, substituindo o de
tirantes. A Efemérides de Lavras não fala se o International estava
carregado. Melhor pensar que não. O veículo foi da origem ao destino em
56 horas, dois dias e pouco e não deve ter rodado à noite, por
prudência.
Saiu
do Rio ao meio-dia em 28/9, chegando ‘em casa’ à tarde do dia 30. O
Jornal de Lavras destaca ainda os perigos da subida da serra da
Mantiqueira, entre Santos Dumont (ex-Palmira) e Antônio Carlos. Ela
estava “em obras”. Isto queria dizer carroças puxadas por burros,
movimentando a terra. Ali se via o empenho do então presidente do Estado
de Minas, Antônio Carlos de Andrada. Embora fosse opositor na política,
naquele capítulo, fazia coro com Washington Luiz, este no plano
federal. Ambos acreditavam que o trem iria perder terreno e investiam na
expansão da malha de rodagem. O primeiro conseguiu dar passagem ao
tráfego de carros, ônibus e caminhões do Rio a Belo Horizonte, via
Conselheiro Lafaiete, Rio Acima e Nova Lima (o DER/MG só surgiria em
1946). Já W. Luiz deixou clara a sua aposta no futuro rodo com a
pavimentação da custosa Rio – Petrópolis (entre outras) e até fundou a
Polícia Rodoviária Federal (1928).
A
subida da serra da Mantiqueira é citada pelos restantes caminhoneiros
que a enfrentaram até 1957, data da abertura da BR-3 (atual BR-040). Uma
de suas melhores lembranças consta das ótimas estórias do saudoso
Henrique Leça (falecido). Ele andou na estrada por anos, ainda na fase
pré-asfalto. Juntou sua vivência e passou a escrever livros e contos
deliciosos. “Em Santos Dumont, quem não parava para comprar o famoso
queijo, abastecia [de combustível] ou se aventurava nas pensões, perdido
de amor e desejo pelas lindas meninas que atendiam os viajantes. Sem
outro jeito, pois elas eram de família e, naquela época, era uma
comunidade respeitada. Ele se contentava em olhar e seguir viagem, pois
bem à sua frente o esperava a monumental Serra da Mantiqueira, com seu
piso de pedra [calçamento poliédrico]. Logo na saída da cidade o meu
velho GMC, leviano com uma carga de barro [filtros], pegava uma primeira
reduzida e saía cantando serra acima até a bica d’água, onde todos
paravam para jogar conversa fora, descansar o motor e o pé que
esquentava no acelerador. Dali pra frente, alternando entre uma segunda
simples e uma terceira reduzida, a gente chegava a Antônio Carlos, no
rumo de Barbacena, onde a paisagem era linda se o tempo estivesse bom”(do conto Poeira de recordações, publicado na Revista Veículo, em setembro de 1997).
FONTE CARGA PESADA

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